22 de mayo de 2007

centro e periferia

Queria colocar aqui algumas impressões deste estrangeiro sobre a cidade de Lisboa como centro e periferia, assim como sobre a capital perante a ou em relação com o resto de Portugal. É certo que ainda é cedo, depois de apenas oito meses de viver em Lisboa, para me ter formado uma opinião sólida, fundada em leituras e escutas, mas vou tentar ao menos bosquejar algumas sensações.

Já desde a primeira vez que pus os pés em Lisboa, após uma viagem de comboio (no inefável “Lusitánia Express”) na Primavera de 1993, tive a viva impressão de estar numa capital-puzzle, num labirinto de mil faces, com um centro de capital europeia moderna e um aglomerado de aldeias à sua volta. Depois, em sussesivas visitas, em parte mudei essa sensação e em parte a confirmei (o labirinto multiface, com toda a sua capacidade de sugestão, é sempre o mesmo e sempre diferente). Os meus passeios e algumas conversas, além de certas leituras e filmes e da rádio e a televisão, fizeram-me ver que Lisboa é decerto uma capital e simultaneamente um rico agregado de bairros que funcionam como aldeias, uma mistura de capital cosmopolita (também na vanguarda artística e cultural) e grande cidade provinciana, e um centro que mergulha as suas raízes na vida rural. Neste aspecto tem numerosas semelhanças com Madrid (e tantas diferenças, felizmente para Lisboa).

Carlos Botelho (1899-1982)

Há muitos Portugais. É frequente estabelecer uma certa divisão ideológica entre o Norte conservador e o Sul mais progressista; e uma separação económica, entre o interior escasso de recursos e o litoral mais rico. Mas também há muitas Lisboas. Além dos extremos (o luxo de Restelo e a miséria dos bairros de barracas), Lisboa é uma cidade entre o campo e a capital, o interior virado à ribeira, mas em termos socio-económicos destaca-se sobretudo a mistura social: os bairros nem sempre estão claramente separados. E desde há décadas é uma capital multicultural, de maneira que a relação centro-periferia não pode limitar-se a Portugal, mas também às ligações com as antigas colónias, nomeadamente os chamados PALOP (Cabo Verde, Angola, Moçambique, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe) e os seus nacionais: no centro, nos transportes, nos bairros, a presença activa dos imigrantes na cidade é evidente. São ligações fundadas na necessidade de mútuo dessenvolvimento económico e pessoal, e nem sempre são relações harmónicas. As injustiças, o racismo e o etnocentrismo próprio das sociedades europeias, além da necessidade gregária dos próprios imigrantes perante a sociedade de acolhimento, dificulta a integração (que não devemos confundir com a assimilação). O encarecimento do preço da habitação (fenómeno ibérico, receio), finalmente, fez com que grande parte da população de classe operária tivesse de procurar casa nos concelhos e cidades em redor da capital. Por isso Lisboa em si própria é centro e periferia: lugar de trabalho para muitos, que pouco a pouco perde habitantes, enquanto as cidades próximas (Amadora, Odivelas, Almada…) virão a ser cidades dormitório.

Lisboa foi e é o centro magnético que atrai os portugueses da periferia, do interior, do Norte, do Sul e das ilhas da Madeira e dos Açores. É acertada a ideia de que Lisboa precisa de estímulo e de ligação ao restante país, que a capital está formada por migrantes, que é importante não perder as ligações à terra. Mas a relação entre centro e periferia não fica por aqui, no território da saudade: o centralismo da capital pode ser um lastro para o desenvolvimento do resto de Portugal, com excepções evidentes (Porto, a costa turística algarvia). Seja como for, é óbvio que não pode existir o centro sem uma periferia que lhe dê sentido e forma, no humano, no social, no económico e no cultural.

11 comentarios:

Anónimo dijo...

Debí entender la mitad... claro que ya hacia la tercera lectura, debió ser un poco más de la mitad seguramente.

Imagino tu Portugal, o quiero imaginarlo, sin embargo todo me resulta tan lejano, aquí por ejemplo, sí existen marcadas diferencias entre las clases, que últimamente están dejando de ser
tres, para ser dos... y es de alguna manera triste, porque o posees todo, o careces de todo.
Y cuando caminas por la capital es como si, como si ésta fuese una gran esfera que girara sobre su propio eje excluyendo al resto, centrifugándolo.
La provincia en cambio, ya hacia la orilla, parece detener el movimiento. Es posible aún en los pueblos, escuchar el tañido de las campanas como lo que sobrevive al eco, y ver pasar muy temprano a las señoras ir al molino para triturar el maíz, o escuchar al mismo tiempo el golpeteo de los cascos, como si el sonido se amplificara al impacto con el pavimento, y el aroma a canela y café reducen absolutamente todo a un par de granos, todo se divisa tan pequeño, todo se alcanza tan, pero tan fácilmente... los niños sólo deben correr a la vega y cortar un par de cañas, hacer escalerita humana para alcanzar los chicos, nanches y tamarindos. En fin, provincia es otro mundo, y las personas su universo, uno que no se obstina en pasar, que no tiene prisa además, sólo transita y con eso se asegura un instante en el recuerdo.

Creo que Lisboa no debe ser tan diferente a la Ciudad de México entonces, cada país a su modo concentra el movimiento en la capital y se fabrica también sus universos.

Es poco, 8 meses es relativamente poco tiempo... suponía, no sé por qué, que llevabas más viviendo allá.
Es extraño, no logro imaginarte ni como español, ni como mexicano, te imagino como un portugués y ni siquiera sé cómo es que son ellos, hasta podría revelar una foto con esta imagen tuya que tengo en la cabeza.

Y bueno, me desvío... bonita entrada, visual, además me obligas a correr a cuanto traductor en línea para entender lo que de pronto se escapa. El que me desvíe, no es nada atribuible a ninguno de ellos por supuesto... minha falha.

Bonito día Azófar.

Anónimo dijo...

Ups, creo que me extendí demasiado... esto tampoco lo leeré

jaja

=(

chispas... prometo no escribir tanto la próxima.

Daniel Pelegrín dijo...

Todas las capitales nacionales se parecen en tanto que imán de gentes, pero a partir de ahí surgen siempre enormes diferencias.
Cómo he disfrutado con tu descripción de la provincia mexicana, eso sí que es visual, casi se puede oír tu texto. Gracias.

Neves de ontem dijo...

Eu também cheguei a primeira vez no Lusitania com o "livro do desassossego" como guia. Cumprimentos.

Daniel Pelegrín dijo...

Neves, a sério? Nessa primeira viagem eu também estive a ler Pessoa todo o tempo, sobretudo o Livro do desassossego, mas eu então só o li na (excelente) tradução de Ángel Crespo. Obrigado pela visita. Salud!

Anónimo dijo...

=)

Ahhh, en los pueblitos de México hay tantos sonidos... tantos.
Todos ellos son maravillosos, quizá eso es lo que más me gusta, porque cuando viajo entro en un mundo de ruidos diferentes, el acorde de las cigarras o el de los grillos, el quiebre de las hojas y las ramas, las palomas y su característico canto alborotando le cúpula de las parroquias, ay... no sé, en verdad no terminaría nunca.

Me alegra que te agradara, yo disfruté mucho de tu entrada.

Salud. Bello día.

Anónimo dijo...

(fe de erratas :
dice le y debe decir la)

Ok no más

Neves de ontem dijo...

É curioso, não disse, mas eu também levava a edição de Ángel Crespo. Ainda a tenho. Nessa altura não falava quase nada português. Será um rito de iniciação de amor pela cidade? :-)

Daniel Pelegrín dijo...

Neves: no meu processo, comecei por Pessoa e, depois de ter lido Saramago (O ano da morte de Ricardo Reis), Cardoso Pires (Alexandra Alpha, Balada da praia dos cães), etc., agora é o Lobo Antunes que me mostra a outra face de Lisboa: é uma poética diferente. E gosto mais dela.

Mabalot dijo...

Me encanta. Sigue contándonos Lisboa, la tuya, la de tu calle, la de los barrios que caminas. Y en portugués te queda precioso.

Daniel Pelegrín dijo...

Ya, Mabalot, pero en portugués me cuesta más... Ahora el trabajo no me deja pasear tanto, a ver si con el verano consigo robar horas para pasear y escribir. Gracias, y salud